CAPÍTULO 1
Estava frio. Estranhamente frio. Maurício olhou ao redor. Se não fosse o soro enfiado em seu braço, se acharia em um hotel. Lentamente entendeu porque estava ali. Olhou as mãos, estavam limpas. Haviam limpado o sangue dela, que fluiu entre seus dedos como se ignorasse sua insistência em bloqueá-lo. A dor era lancinante, mas ele só pensava nela tremendo convulsivamente, com o sangue a espirrar, embranquecendo aos poucos. Tinha que parar a hemorragia. Por mais que colocasse as mãos sobre o ferimento, o sangue seguia, espesso, entre seus dedos. E agora ele estava ali. Vivo, consciente, limpo, em um quarto de hospital que mais parecia um hotel. O pária: extremamente magro, branco como um fantasma, olhos mortos. Nunca o esqueceria. E estava disposto a reencontrá-lo. Precisava reencontrá-lo. Para vingar-se. Não do pária, apenas. Este era seu objetivo final, o ponto máximo de sua vingança. Vingar-se-ia da cidade.
“Bom-dia. Mais um final de semana violento na Região Metropolitana do Recife. Na madrugada da sexta-feira, dois jovens tiveram o carro roubado na Av. Conde da Boa Vista, no centro da cidade. Maurício Carvalho Almeida, 23 anos, teve o intestino perfurado por uma bala disparada pelo assaltante, e está internado no Hospital Santa Joana. Alice Mendonça,22 anos, morreu antes de chegarem os socorros. O carro foi encontrado abandonado ainda na Conde da Boa Vista. Segundo o delegado Alberto Gós, o bandido deve ter desistido do roubo após ter baleado as vítimas.” A apresentadora olha para outra câmera.
“Perto dali, nas intermediações da rua Sete de Setembro, um prédio pegou fogo, matando três pessoas, inclusive uma menina de dois anos. O Corpo de Bombeiros ainda está no local.” A apresentadora olha para a primeira câmera. Sorri.
“Pelo segundo ano consecutivo, o Maracatu Estrela de Ouro vence o festival de dança de Joinville, em...” Ele desliga.
Durante três semanas ele fingiu. Recebia os pais, os sogros, os amigos. A mãe contou-lhe sobre o enterro de Alice. Choraram. A sogra dizia-lhe, com a mão dele entre às suas, o quanto sofria. Os amigos falavam da faculdade, do trabalho. Então, ele fugiu.
Chovia. A chuva não limpava a cidade, como fazia em Paris, quando os excrementos eram levados ao Sena, séculos atrás. A cidade era inundada de todas as pestilências quando chovia. Ele vagava com nojo. O cheiro podre penetrava-lhe a alma. Seguia incerto, por horas intermináveis. Faltava pouco para amanhecer. Ele pensaria melhor.
Quando o dia nasceu ele estava sentado em um banco, ao lado de Manuel Bandeira. “Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância”, este diria. “— O que eu vejo é o beco”, era aquele. Para alegria de Manuel, sua estátua ficava na Rua da Aurora e não na amedrontadora “Dr. Fulano de Tal”, como previra. Maurício olhou para o caranguejo de ferro que se erguia a sua frente. O bicho o ameaçava de morte. Estava decidido. Para iniciar sua vingança, precisava ir até o inimigo, compactuar com ele. Não tinha outro jeito.