sexta-feira, 4 de maio de 2007

O filme Filhos da Esperança: 1-Em seu auge, a Europa descobre um novo problema. 2- O significado do nascimento.

Ontem assisti Filhos de Esperança, filme de Alfonso Cuarón sobre um futuro próximo apocalíptico, mas, diferentemente de outros filmes do gênero, absolutamente palpável. O ambiente é uma Londres em eterno conflito, caótica, amedrontadora, como seriam hoje as grandes metrópoles do mundo periférico, com seus problemas agravados por questões ambientais e constantes ameaça de guerra civil (o que, de fato, existe em vários lugares). A situação da cidade e do mundo de 2027 é apresentada com sutileza, sem apelar para a criação de um cenário futurista ou mesmo extremamente decadente. A violência está nas grades que protegem as janelas do metrô; a guerra está em um Davi de Michelangelo com uma “prótese” na perna esquerda, após ser resgatado de um bombardeio na Itália (o bombardeio não aparece no filme); o clima de armagedon está nos profetas discursando bravatas em púlpitos improvisados pelas ruas; a falta de controle está nas publicidades que alertam sobre a ilegalidade dos imigrantes; a precária situação do planeta está nos cartazes sobre a falta d’água e, o tema central do filme, em uma pandemia de infertilidade na raça humana. Afora todo o brilhantismo técnico do filme, da fotografia à atuação do elenco, queria discutir sobre duas questões essenciais na história do filme, ambas já citadas e bastante distintas, podendo, inclusive, serem lidas separadamente:

1 - No filme o mundo passou por uma série de guerras e cataclismos e, como anunciado na tela instalada nos ônibus, apenas Londres resiste com alguma noção de governo. Apesar do clima de insegurança, sugere-se que o resto do mundo anda muito pior. Aí, milhares de imigrantes entram ilegalmente na cidade, os quais são caçados com afinco pelo exército e polícia. Do lado oposto encontram-se Os Peixes, grupo terrorista que defende o bem-estar dessa população estrangeira. É óbvio que, elevado a proporções dignas dos fins dos tempos, o filme retrata um problema que a Europa atravessa com grandes dificuldades, hoje. Ao longo desses 50 anos de União Européia, o conjunto de países que a integram mostrou-se o mais sólido e pungente do planeta, capaz de conciliar uma economia vigorosa, cidadania e alto nível de qualidade de vida para seus habitantes (o que não acontece nem no pretensioso EUA). De fato, os países mais pobres e desiguais do continente cresceram, modernizaram-se e tiveram grandes avanços sociais quando se uniram às grandes potências européias, caso de Portugal, por exemplo. Mas, a longa história da Europa, que já foi um grande Império, feudos miseráveis, monarquias absolutistas que sugavam as riquezas de suas colônias para grandeza de uma nobreza de poucos, que passou por Hitler, Franco e Stálin e por duas guerras que destruíram seu território, quando pareceu levar ao ápice da civilização (e civilidade), novas questões surgiram. O mundo que um dia lhe serviu de matéria-prima e mão-de-obra escrava também quis participar da festa e até o mundo que um dia dominou a península ibérica mas foi expulso, decidiu tentar um retorno. A Europa recebe milhares de imigrantes latino-americanos, africanos e de origem islâmica. Mas, como sabiamente um dos atuais candidatos à presidência da França lembrou, apesar de toda a grandeza econômica e social, o continente não pode arcar com a pobreza do mundo inteiro. O que acontece é que esses imigrantes não têm especialização para entrar no mercado de trabalho europeu e, mesmo se tivessem, eles são muitos, muitos. Aí a França passa por uma crise de desemprego, Roma vira um festival de mendicância (que desagrada também aos turistas brasileiros, tão acostumados a ela) e o grupo islâmico não se integra à sociedade que há 1500 anos pratica o cristianismo. Carros queimados, tropas de choque, atentados terroristas, cortiços...Se não se achar uma solução, a Europa vai explodir.

2 – O tema central de Filhos da Esperança é a infertilidade da raça humana, tendo havido o último nascimento do mundo há pouco mais de 18 anos. Quando a pessoa mais jovem do planeta (esse que nasceu há pouco mais de 18 anos) é assassinada, o clima de comoção é geral. As mulheres choram, os bares são tomados por gente que quer saber como aconteceu, os programas de TV fazem uma retrospectiva da vida do, com 18 anos, “bebê” Diego. Ao longo do filme, personagens citam como o mundo ficou sombrio sem o riso, a voz e os gritos de uma criança. Eis que surge um milagre: uma jovem está grávida. Não vou me ater ao que levou a isto, mas o fato é que ela é perseguida por um grupo que quer usar o bebê com fins políticos e acaba, já com o bebê no colo, em meio a uma revolução armada. Quando ela, entre os dois lados de um tiroteio, mostra o recém-nascido, tudo pára. Soldados ajoelham-se, fazem o sinal-da-cruz, rebeldes sorriem e tocam no bebê quando ele passa, como se fosse um santo. É difícil imaginar uma situação real onde há mais de 18 anos não nasce nenhuma criança. Mas, vendo o filme, é fácil sentir a emoção de ver o primeiro bebê depois desse tempo. O que quero dizer é que, apesar de todas as diferenças, de todos os conflitos e problemas, de todo preconceito e discriminação, a humanidade ainda é única. E não queremos nos ver extintos. Muita gente fala que, nos dias de hoje, seja pela violência ou pelo caótico estado da natureza, não quer ter filho, não quer colocar um filho “num mundo como este”. Esquecem que, apesar de estar assim, o mundo ainda é nosso. E uma criança que nasça é a esperança de continuidade do Homem, é a nossa eternidade. E, como que pra lembrar que nem tudo está perdido, o filme termina não com uma música acompanhando os créditos finais, como é praxe, mas com o som do riso de várias crianças.

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